Você está aqui    Home | Pastorais | Não odiar é o mesmo que amar?
 
Ao vencedor, dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus. Apocalipse 2:7b

Não odiar é o mesmo que amar?

 
Seções Gerais - Pastorais

Apesar de parecer óbvia, tenho certeza de que há cristãos que inferem uma ação da outra. Não, não é a mesma coisa. Infelizmente, no que diz respeito às nossas ações, muitas das mesmas não são "normais", no sentido de se aterem àquilo em que acreditamos. E dizemos acreditar que precisamos amar o próximo - inclusive, como mandamento bíblico -, mas muitos de nós, no máximo, não odeiam. Quero chamar à atenção, aqui, para o gravíssimo problema da indiferença. A indiferença é um tipo de atitude, como qualquer outra, só que com a peculiaridade da inércia. É uma espécie de auto-sabotagem, haja vista que a indiferença alimenta-se de uma não-motivação: o indivíduo é levado, pela apatia (sob determinados e específicos aspectos) a nada fazer, inclusive nada sentir. Esta, portanto, é uma condição horrível, uma vez que quanto mais não sentir ou não fazer, "melhor" para a indiferença. Quando menos esperamos, há muito tempo não fazemos nada, porque não sentimos nenhuma motivação a fazer.

Pode-se pensar que tal estado é da mais perfeita "normalidade", pois a autocrítica consciente é algo cada vez mais raro em nossa sociedade. E um dado alarmante: parece que a indiferença tem-se estabelecido como a ação dominante no nosso modo individualista e pluralista de ser. É quase como uma ordem silenciosa, que estabelece-se e padroniza os relacionamentos humanos a priori. Assim, sabe-se a priori que "não é legal" lidar com quaisquer questões alheias, principalmente de pessoas "estranhas", pois, de imediato, qualquer tipo de ação neste sentido poderá ser interpretada como desrespeitosa, inconveniente e assaz perturbadora. A indiferença só poderá ser analisada e autoevidenciada através de uma análise psicológica pessoal simples, mas verdadeira. Corro o risco de até ser interpretado como paranoico ou inconveniente aqui, justamente pelo fato de que pode haver quem leia estas linhas e diga para si mesmo: "Mas o fato de este pastor pensar em como devo agir beira a petulância". E o que muitos poderão fazer? Nada! Estão dominados pela lei do pensamento da indiferença. Não me odiarão, ou odiarão quem pensa diferente... simplesmente seguirão indiferentes.
Na esfera religiosa, isto assume auspícios de uma crueldade inimaginável. Sim, crueldade. "Não odiar" não infere "amar", como disse, mas o contrário: "não amar". Este é o grande mal da indiferença, imperceptível para quem se alimenta dela. Quando não odiamos, por causa de nossa indiferença, e pensamos que estamos fazendo o bem com isso, na verdade não conseguimos perceber que não amamos, pois amar é agir, é fazer, é ser relevante. A indiferença privilegia a irrelevância, o amor, não. Quando lemos a primeira carta de Paulo aos coríntios, capítulo 13, vemos uma das mais belas descrições do que é amor. Há um trecho curioso que em que está escrito:
"O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta". (vss. 4-7).
Ora, se o amor não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal e não se alegra com a injustiça é porque é humilde, conveniente, busca os interesses do próximo, é paciente, alegra-se com o bem e entristece-se com a injustiça (alegrando-se com a justiça). O fato de o amor "não fazer" uma série de atos não implica dizer que a neutralidade quanto a estes mesmos atos significa amor ou bondade. Não significa. O oposto do que foi dito implica amor, e não a neutralidade! Assim, cristãos "neutros" convenientemente adaptados ao nosso mundo "plural" e sabedores de seus deveres obrigatórios mas negligentes quanto aos mesmos são cristãos que não amam. Resta a pergunta: se a marca característica do Cristianismo é o amor, o não-amor na vida de um indivíduo o qualificaria como o quê? Só uma resposta obedece a esta simples, porém inequívoca lógica: um não-cristão.

Em Cristo Jesus,

Pr. Artur Eduardo


PORTAL IEVCA